terça-feira, 17 de novembro de 2009

Do Fundo da Minha Insignificância


Guardei aquele poema feliz para postar no exato momento em que suas palavras doces calassem as minhas e que você até roubasse a minha voz para dizê-las a outro alguém. Mas devo ter perdido o poema-suicídio - sim, a felicidade também é uma forma de suicídio - na bagunça dos meus papéis, ou até tê-lo queimado quando acendi aquele último cigarro, para acizentar a minha dor.

E porque não tenho poema e nem ópio, quero o grito silencioso de ter a alma tão rasgada quanto os versos que um dia te escrevi.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Quando eu nasci, veio um anjo esquisito
Desses que são mal vistos no céu
E pragueou:
- Vai, menina
Ser Amanda na vida!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Poema sem nome


"Mas você me acharia estranha - porque eu desrespeito a gramática e falo um idioma que ninguém sabe o que é e só ontem descobri que seu nome se escreve com EME no final"

Talvez eu saia gritando o teu nome

Pelos pontos, pelas pontas e esquinas
Como um bêbado louco e vadio
Ou como o poeta solitário

Assassinado pelo veneno das palavras.

(No arco de tua íris
O vão sussurro dos deuses
E versos vermelhos de Chico
Incendiando céus e ruas)

No arco de tua íris
Paraíso pagão.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A Grande Enchente se Aproxima


Os pingos da chuva
Estalam na rua
Como cacos de vidro
Que cortam a alma.

Nenhuma alegria
Nas notas distantes
De uma valsa fria e vil.

(Deu no jornal:
A grande enchente se aproxima)
Rua e mulher estão semi-plenas
De chuva e de vazio.

Volto porque não resisti e porque seria impossível viver sem esse cantinho só meu. Quase um ano de ausência... Mais de um século de saudade.

Amandita.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Sobre o Natal



Todo ano é a mesma coisa: mando poesia de Natal pros amigos, apareço nas festas com gorro de Papai Noel, converso com alguém sobre o que estou escrevendo, sobre a faculdade, sobre a maldade de se matar um peru, blábláblá.


Mas esse ano eu virei na porra e decidi que não vou à festa nenhuma, em gesto de protesto. Porque eu não gosto desse ritual estranho no qual transformaram o Natal e não posso mais enrolar e fazer parte dele. Ponto final. Começa assim: as pessoas enfeitam as casas com luzes e saem pelos shoppings como neuróticas numa corrida em busca de presentes. Terminam acordando no dia 25 com ressaca e começando o ano seguinte enfiadas em dívidas.


Eis o problema da festa (antes que me chamem de anti-social): virou meramente mais uma festa em nosso calendário. E Natal definitivamente não é isso. O que era para ser o nascimento de Jesus virou Papai Noel (o mais bem elaborado símbolo do capitalismo selvagem); o que era para ser a união de um povo – Natal tem a destreza de nos tornar mais expostos aos outros e ao mundo – o que era para ser a união, foi afirmando nossos abismos; e todo o resto virou consumismo.


Eu poderia passar mais um Natal vendo alguém exagerar na bebida e vendo alguém se empanturrando da comida de uma mesa farta, mas resolvi criticar tudo isso: enquanto se celebram as culturas do consumismo e do desperdício, tem gente morando na rua, passando fome, com frio. Tem gente na casa ao lado, ou seja lá onde for, que não tem o que dar aos filhos, tem filhos que não podem ter nem um brinquedinho barato.


Enquanto as pessoas morrem por coisas que não nos faltam, pelas quais nem nos damos ao trabalho minucioso de agradecer, seguimos nossa comemoração vazia e sem sentido. Desejamos “feliz Natal” sem saber o seu real significado. Transformamos nossos dias em abismos de futilidades. Cuidamos do que nos convém.

Onde foi parar o verdadeiro espírito natalino?

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Rai


E eis que vejo meus olhos
(Assim, exilada do corpo)
Encontrarem teus olhos verdes
Quando me faltavam auroras.

Quando me faltavam dias
Teus olhos vieram na rua
Desvendar minha alma nua
Fustigar meu coração.

Eu inteira sou silêncio
Com o fato nos meus braços
Com meus olhos no embaraço
Com tuas mãos em minha mãos.


Para a minha poetazul dos olhos-de-mar-aberto.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Meninas, corram!


Tinha ouvido falar maravilhas sobre a peça e entrei no teatro cheia de expectativas. O monólogo Meninas, Corram! me deixou encantada e saí do Gamboa cheia de reflexões sobre o dia-a-dia da mulher na sociedade contemporânea, incentivada pela representação fantástica da atriz Alda Maria, em uma montagem intimista e inteligente.
Comecei a refletir sobre o papel da mídia na construção de mulheres talhadas a buscar incansavelmente padrões de beleza inatingíveis. Nosso estereotipo ideal não condiz com a realidade do Brasil: mulheres magérrimas (quanto mais anoréxicas, melhor) ou com curvas perfeitas, as famosas gostosonas, cabelos lisos e por aí vai. O que leva o país a ser o segundo em cirurgias plásticas no mundo?
É preciso rever a boneca Barbie que alguém entrega despreocupadamente a uma criança, na qual esta possivelmente irá se espelhar. É preciso rever a imagem feminina vendida por programas como Zorra Total, afinal, como diz uma tia minha, mulher não é sexo, mas sim gênero humano.
É preciso rever conceitos. A beleza está na alma.