Suspensa e desfalecida em um extasiar noturno, ela escapou daquele entorpecimento ainda hesitante, trouxe os seus pés de lá de dentro, mas descuidou-se e esqueceu o irrevelável despido, rodopiando bêbado e entregue a um delinear de uma singela agulha de vitrola... Sim, desbotada... pálida... desabitada... ela ouvia o irrevelável tocar em tão ensurdecedor tom, esse que invadia para além das paredes coaguladas do misterioso sonho e escorria para aquele resto desperto de efeito real...
A dor ensurdecida do irrevelável era absurda e boa - e corroía lentamente suas veias, como veneno doce. Numa dança secreta de um não-corpo, ela abria lentamente os olhos, a luz desenhava lentamente a realidade em sua retina, um som qualquer lentamente cortava a escuridão de seus ouvidos. Lentamente... lentamente... dançava, silenciosa, na beira de seus abismos.
Deslizou diligentemente os dedos nas sedas rubras e acetinadas do seu leito macio, reverenciando ao único sentido ainda não embotado pela insanidade uma cinestesia limpa que desdizia-se, convertendo-se em arrepios estremecidos... Do real ela percebia os ruído de frio, do delírio ela recebia as vibrações arrebatadoras da dúvida, do dual ressentia-se com o corrosivo irrevelável.... um elo de dimensões sacralizado pelo negro vinil que desmanchava-se em um canto gregoriano de fêmeas e mumificava por uma argila estéril a nostalgia do absoluto esquecido, devindo a ser por toda essa coreografia a arte imaculada da esquizofrenia...
De dentro da orgia inquieta dos pensamentos, permaneci calada. Olhei-a como quem olha o outro lado de um espelho, como quem seca seus monstros com o medo que só é próprio a quem é mortal. Eu nem estava ali, mas a olhei no fundo dos olhos envenenados que não me viam, já tão rubros quanto o seu leito. Mudas, continuamos o ritual deste intragável caminho: ela, à beira de seus próprios abismos; eu, espectadora silente e cruel da sua glória insensata.
Dei-me conta que o irrevelável deixou de ser a trilha sonora daquela película excêntrica, saíra da vitrola para enroscar-se em meio aos meus dedos..... a melodia guardava em suas notas o valioso enigma: Era eu uma existência efêmera que morreria quando a bela despertasse do seu devanear? Ou era eu quem a assassinaria recalcando-a em um canto qualquer da minha loucura subversiva? Era eu quem flutuava indolente pelas distâncias pantanosas da alma daquele ser? Ou era ela quem abandonava a si e assenhorava-se do meu desnudar psicotizado?
Rendida ao improviso de existir visitei-me, deparei com a minha vigília debilitada... Não toleraria sobre o meu eu deixar sepultar a consciência de sentir-me nesse preciso aqui como um mero entusiasmo imaginário daquela mulher desatinada.... Imensurável crueldade seria deixar ela deslocar-se dos seus próprios sonhos para desmanchar-se nas minhas abstrações furtando-me a minha circunstância de ser divindade a mercê de meus caprichos.... Infortúnio maior seria descobrir que eu me reduzia ao seu espírito desencarnado..... Sim, como fantasma indigno de memória ..... Não sei... e para continuar a não saber, com força pouca, mas muito estreito, eu apertava o meu punho para não deixar sufocar e nem escapar o escorregadio e vivo som do segredo... A acústica da minha epiderme plastificada fez secar aquela música... exausta, levei-a endurecida e furei os meus olhos com o irrevelável... Assim, deixei-me esvaziar por cores não inventadas e me fiz cega e oca. Ao vazar-me renunciei-me ao milagre do belo e deitei-me como um feto amparado, esperando que as mãos da mulher louca me envolvesse e me salvasse de mim mesma.
Amanda Julieta e Claudia Valois.

1 comentários:
3 palavras: adorei, adorei e adorei. rs
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